Empreender e empregar. Educar também!

Por Lúcia Tavares

Há 12 anos o Sindicato das Empresas de Asseio e Conservação - SEAC/SP vem se empenhando no avanço da escolaridade de aproximadamente 80 mil trabalhadores do segmento inseridos no contexto do analfabetismo funcional - aqueles capazes de reconhecer letras e números, mas impotentes na compreensão de textos simples e das mais básicas operações matemáticas.

Rui Monteiro, presidente da entidade, esclarece que a limpeza profissional implica rotinas diárias com o uso de produtos industrializados “nos quais as empresas investem para melhor atuar nos locais de prestação de serviços aos contratantes das diversas instituições públicas e de todos os setores produtivos".

O empresário refere-se às rápidas transformações na especificidade incorporada aos produtos e equipamentos que a indústria disponibiliza ao mercado desse segmento do setor de Serviços. São grandes benefícios tecnológicos, mas Monteiro pondera que tais  avanços trazem ao empreendedor uma crescente preocupação com a segurança e o bom desempenho dos trabalhadores que os usam na rotina das demandas contratadas. 

Na busca de soluções para o caso, em 2006 o SEAC paulista instituiu o Programa de Educação Continuada, possibilitando a funcionários de empresas associadas o início ou a continuidade dos estudos nos Ensinos Fundamental e Médio. A ação envolve parceria da entidade empresarial com o sindicato laboral da atividade - Siemaco e com a Companhia do Metropolitano de São Paulo, o Metrô.
 
Rui Monteiro salienta que além do benefício pessoal e profissional aos funcionários que passam pelos cursos, os empregadores também se favorecem com a formação educacional deles. “Mais qualificados, os trabalhadores crescem profissionalmente, levando as empresas até mesmo à retenção de talentos revelados após a frequência no Programa. Isso sem falar no aumento da produtividade e na almejada redução de acidentes no ambiente de negócios”, conclui o empresário ao citar também cursos in company podem ser ministrados nas sedes das empresas interessadas.

Mais de 2,5 mil trabalhadores já passaram pelo programa educacional, que vem ministrando aulas em salas instaladas nas estações do Metrô Itaquera, Capão Redondo, Consolação e Jabaquara, e também na sede do Siemaco, na região de Santa Cecília.

No próximo semestre, informa Monteiro, a estação Oratório da Linha 15-Prata do monotrilho também abrigará uma unidade de ensino. Cada espaço abriga de 15 a 20 estudantes em aulas de duas horas e meia, de segunda à quinta-feira, para 12 turmas do Ensino Fundamental I (1º/ 5 º ano), Ensino Fundamental II (6º/ 9º ano) e Ensino Médio (1º/3º ano), nos períodos da manhã, tarde e noite.

As matérias, todas constantes da base curricular oficial, são ensinadas por estudantes universitários contratados e remunerados pelos sindicatos patronal e laboral - que também disponibilizam aos alunos todo o material escolar e lanches para seu reforço alimentar nos três períodos das aulas.

O Português como acesso à lógica matemática  

Pierantonio Sedo, membro do Conselho Fiscal do SEAC-SP, ressalta a importância do estudo da Língua Portuguesa e da Matemática nas demandas diárias dos trabalhadores. “A intenção é que os funcionários tenham condições básicas ao exercício de suas atividades - como, inicialmente, ler o Programa de Trabalho do dia que recebem de seus supervisores, e dessa forma saber exatamente o que, quando e como devem fazer”.

Com as instruções sobre finalidades, manipulação, dosagens, cuidados e prazos das ferramentas escritas em rótulos ou manuais de instrução, a leitura e a interpretação dessas informações são cruciais tanto para o bom desempenho no serviço quanto para a segurança e a saúde de quem as manuseia. Pierantonio pontua a imprescindibilidade de conhecimentos básicos da Matemática em termos quantitativos, sequencial e cronológico, porque os trabalhadores precisam saber como, em que ordem e períodos de tempo fazer uso correto e seguro dos produtos, equipamentos e máquinas.

Produtos químicos usados na limpeza profissional são geralmente entregues em estado puro nos pontos da prestação de serviços. Saber a proporção adequada à diluição deles em água é importante para a segurança de quem os utiliza, que implica também a correta utilização de máquinas de vários portes e finalidades utilizadas no trabalho.

Em 2019, aulas na estação Oratório do Metrô

Também do quadro diretivo do SEAC-SP, o empresário Luiz Luzzi foi o entusiasta idealizador do Programa Educação Continuada como projeto, e de sua implementação por meio da parceria com o Metrô paulistano.
Luzzi informa que em recente reunião dos sindicatos patronal e laboral do segmento de asseio e conservação com a diretoria do Metrô foi decidida a abertura de nova sala de aula no próximo semestre na Estação Oratório da Linha 15-Prata do monotrilho, no próximo semestre.
Outra novidade será uma apresentação da Unimetro - Universidade Corporativa do Metrô à diretoria do SEAC-SP. Diante da constante ampliação das linhas do sistema metroviário, a instituição é voltada à formação profissional especializada para seus funcionários, e tem parcerias com diversas universidades que oferecem cursos de pós-graduação, MBA e de especialidades, além de cursos de aperfeiçoamento para seus funcionários de nível técnico.

Ao destacar a importância social do resgate de uma pessoa do analfabetismo, especialmente de um trabalhador adulto, por promover sua cidadania, qualificação profissional e acesso a outro patamar no mercado, o empresário salienta que “enquanto o Estado se perde em atividades diversas, negligenciando a essencialidade da educação pública, a parceria entre SEAC-SP e Siemaco com a fundamental coparticipação do Metrô constitui-se num exemplo para outros segmentos econômicos”.

Educação capacita para a vida, afirma líder laboral

Moacyr Pereira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviço de Asseio e Conservação de São Paulo -Siemaco, salienta o quanto a realidade do mercado mudou nas ultimas décadas, e que a vontade de trabalhar não é mais garantia de emprego na Limpeza, na qual o diploma do Ensino Fundamental torna-se requisito básico para se manter numa equipe ou para conseguir uma vaga.

“Trabalhador que não sabe ler e escrever é como um estrangeiro em seu próprio país. Se no passado nosso objetivo era a alfabetização, temos agora na educação também uma
forma de se chegar à capacitação profissional e qualificação técnica”, avalia, recordando que, componentes da base da pirâmide social, os trabalhadores da limpeza são em sua maioria mulheres, idosos/aposentados e jovens  em seu primeiro emprego ou egressos de outras atividades -  todos cientes dessa nova face do mercado de trabalho.

“Para o Siemaco, a educação formal complementa a cultura do nosso trabalhador. Ela não apenas garante melhores oportunidades de trabalho, segurança e crescimento profissional, mas capacita para a vida!”, conclui Moacyr Pereira.

Responsável pelo Departamento Sociocultural do Siemaco, Roberta Butolo faz a coordenação pedagógica do Programa Educação Continuada e também administra a atuação dos universitários disponibilizados para darem aulas aos alunos.

Ela conta qual a estratégia na definição dos locais em que as aulas acontecem até agora, aos quais se somará a estação Oratório. “As estações do Metrô Itaquera na Zona Leste e Capão Redondo na Sul, são pontos de alta densidade da população mais carente. A da Consolação está na área central da cidade. O Jabaquara é região com média de 220 mil habitantes. E o Siemaco, porque a entidade é praticamente a casa dos nossos trabalhadores”.

Quanto às certificações de conclusão de curso, para alunos que alcancem o nível adequado de instrução e possam avançar nos estudos junto às instituições regulares de ensino, ela esclarece que eles são encaminhados para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).Também nessa etapa conclusiva do processo, os sindicatos patronal e laboral do segmento de Asseio e Conservação acompanham os alunos, garante coordenadora.  

Diante da  enorme massa de trabalhadores do segmento de Asseio e Conservação que não completaram o Ensino Fundamental, calculada em torno de 60% do contingente, Roberta Butolo esclarece: os interessados em estudar no Educação Continuada podem ingressar nos cursos imediatamente após sua inscrição. Para receber os recém-chegados nas salas de aula em funcionamento são criados novos grupos de alunos com os mesmos níveis de necessidades de aprendizado.

A mais nova turma diplomada

No auditório do Siemaco na noite de 12 de julho, 81 trabalhadores de empresas associadas ao SEAC-SP diplomaram-se no Ensino Médio pelo Educação Continuada. Luiz Luzzi e Moacyr Pereira e Roberta Butolo prestigiaram o evento.

Para Luzzi, a formatura da última turma foi momento ímpar para os formandos e seus familiares, professores e convidados. “Os cursos vêm produzindo bons frutos com seu planejamento colaborativo a aproximar os educandos das novas tecnologias indispensáveis ao mercado de trabalho, privilegiando o aluno trabalhador interessado não somente em agregar o certificado a seu currículo, mas, sobretudo, o  orgulho dele por ter a escola como parte de sua vivência”.

 

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